Encontrei este poema quando procurava artigos de opinião e exemplos de Punk Marketing, pelo que me espantou pela simplicidade, e sua forma ardilosa e de extrema inteligência, para contestar e se fazer ouvir pelo distante Ministro da Agricultura do então Estado Novo.
E pergunta-se o leitor deste Blog:
O que tem a haver este poema com o Punk Marketing???
Pois bem passo a explicar, com todo este ruído de informação nos média, coloca-se o nosso consumidor na distância de ser atingido pelo que lhe queremos comunicar como o Sr. Ministro da Agricultura do Presidente do Conselho Sr. António Salazar, e sobre o contexto também hoje podemos ser enclausurados desterrados ou deportados pelo consumidor, pois ele é que tem o poder de nos conceder o que dele necessitamos, a sua atenção.
Visto tal, este poema remete-me para a simplicidade de chocar o nosso alvo, o nosso consumidor, faze-lo rir, atacando inteligentemente alguns dogmas preestabelecidos de forma ardilosa e provocativa, trazendo-mos a reacção esperada “vendas”.
Divirta-se
Conta-se que este poema foi dirigido ao Ministro da Agricultura do
governo de Salazar, como forma de pedir adubos. Por mais estranho que
pareça, o senhor que o escreveu não foi preso e Salazar até se fartou
de rir. (quando o leu)
Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.
Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.
Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.
Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!
O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!
A Nação confiou-lhe os seus destinos?…
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
… quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n’um traque do Ministro das Finanças?…
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.
Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n’elas.
Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.
Adubos de potassa?… Cal?… Azote?…
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!
Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…
Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.
Ah!… Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!…
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!
Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.
Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.
Precisamos de merda, senhor Soisa!…
E nunca precisámos de outra coisa.
Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)
